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Entendendo o Calendário Cristão

O CALENDÁRIO CRISTÃO: CELEBRANDO O ANO LITÚRGICO
Pr. Filipe Pereira de Mesquita – Igreja do Jardim Botâncio
e Zélia Santos Constantino – Igreja do Catete/RJ

1 - INTRODUÇÃO:

  Há muitas pessoas que não olham com simpatia o termo liturgia, pois lhes cheira a formalismo, "romanismo", clericalismo, ritualismo, etc.

  Mas a Palavra liturgia significa serviço, trabalho ou dever público. Na Igreja aplica-se à eucaristia (Ceia do Senhor) e ao culto. É uma palavra da rica tradição bíblica (tanto hebraica quanto grega) de onde herdamos também muitas outras palavras pelas quais, normalmente, não temos preconceitos:
- amém e aleluia, por exemplo, são hebraicas. 
- igreja, batismo, presbítero, bíblia, Cristo, evangelhos, são gregas.

2 - O ANO LITÚRGICO E SUA ORIGEM:

  Quando se fala de ano litúrgico, também pode haver uma certa reserva por parte de algumas pessoas. No entanto, o ano litúrgico tem sua origem a partir da Bíblia: 

a) Primeiramente, tem suas raízes a partir do "ano litúrgico" judaico, com suas datas e festas comemoradas periodicamente: Páscoa, Pentecostes, etc... além do Sábado.

b) A Igreja cristã nasceu dentro do Judaísmo, o qual tinha duas expressões principais de culto: no templo e na sinagoga. No templo - centralizada no altar (sacrifício). Na sinagoga - centralizada no ensino da Escritura Sagrada.

c) Os primeiros cristãos continuaram a guardar as festas judáicas, agora à luz da fé cristã (cf. At 20:16; 1Co 16:8 e At 20:7).

d) O ponto de partida do ano litúrgico cristão foi a Páscoa.

e) Os discípulos de Jesus não puderam mais expressar a plenitude de seu culto dentro das formas antigas. Todavia, estas lhes serviram de modelo: no lugar do sacrifício no templo, celebram a Ceia do Senhor e, a pregação não mais previa a vinda do Messias, mas o anunciava em Jesus, o qual morreu e ressuscitou, segundo as Escrituras ( Cf. At 2:14-36; At 3:13-26; 1Co 15:3-8).
O processo para se chegar ao atual ano litúrgico foi gradual e se estendeu por vários séculos. Os cristãos do século II já possuíam um embrião de um ano litúrgico, numa comemoração semanal: na 4ª-feira praticava-se o jejum (lembrança da traição), na 6ª-feira praticava-se outro jejum (lembrança da morte de Jesus) e no domingo celebrava-se a ressurreição do Senhor.
Pelo fim do século II, estabelecendo um paralelo com a festa anual da Páscoa, começaram a fixar-se datas anuais correspondentes às 4ªs e 6ªs-feiras. E na Idade Média, a Igreja já havia estabelecido completamente as fases (estações) do ano litúrgico.

3 - A RENOVAÇÃO LITÚRGICA NA REFORMA:

 No fim da Idade Média, o calendário litúrgico havia se tornado tão pesado e tão cheio de elementos estranhos à fé cristã que ameaçava deslocar o centro da fé. A Reforma Protestante não eliminou o calendário litúrgico, mas procurou simplificá-lo, preservando todas as comemorações relacionadas diretamente com a história da salvação. E como exemplo dessa simplificação e volta ao sentido original e bíblico, foi a eliminação no calendário litúrgico das comemorações relacionadas com a Virgem Maria.

 "O ano litúrgico outra coisa não deve ser senão uma ampliação da revelação que em Cristo se tornou um evento, isto é, um ano centralizado em Cristo" (A.D. Müller, apud von Allmen, p. 280).

4 - UMA BREVE INTRODUÇÃO ÀS ESTAÇÕES LITÚRGICAS:

 O calendário litúrgico é um plano de adoração que se baseia nos grandes temas da história da salvação, especialmente na vida de Cristo. 
De acordo com esse plano de adoração, os textos mais expressivos da Bíblia se sucedem a cada domingo, formando o lecionário. Assim, o lecionário é a coleção de textos bíblicos a serem usados a cada domingo na celebração do ano litúrgico. O lecionário inclui textos do Antigo Testamento, texto das Epístolas e textos do Evangelho.

 A comemoração do ano litúrgico é importante porque permite reviver os principais eventos da história da salvação e evitar a repetição desnecessária de textos bíblicos que focalizam apenas alguns aspectos da história bíblica, da história da salvação.

5 - CELEBRANDO EM CADA ANO TODA A HISTÓRIA BÍBLICA:

 Como já foi dito, o costume do povo judaico de rememorar com festas anuais os grandes feitos de Deus na libertação do povo de Israel tem seqüência no Cristianismo nas datas que o povo cristão relembra a história de sua redenção. Essas datas compõem o calendário cristão, ou ano litúrgico.

 Numa seqüência ordenada, ele começa com a esperança de Israel, tem continuidade no nascimento, vida e morte e ressurreição de Jesus; lembra a descida do Espírito Santo e termina no atual período em que vive a Igreja - nas Primícias do Reino, à espera da consumação final vitoriosa de nosso Senhor e Mestre.

 Os períodos ou fases do Calendário cristão, a seguir descritos, são os adotados quase que universalmente pelas Igrejas chamadas históricas (as mais antigas), estando a sua seqüência calcada na tradição wesleyana.

 A fim de marcar mais claramente estas épocas, a Igreja lança mão de leituras bíblicas especiais, cores distintas para as roupas dos ministros e ministras, dos coros, das toalhas das mesas e púlpitos, e estandartes ou bandeiras.

 Infelizmente, no Brasil, por uma reação exagerada aos abusos do catolicismo romano, a Igreja Protestante deu pouca ênfase ao Calendário Cristão. Somente há alguns anos, ela vem reconhecendo o quanto perdeu ao desprezar estes importantes elementos para a contínua renovação de sua vida de adoração.

6 - EIS AQUI UM RÁPIDO ESBOÇO DO CALENDÁRIO CRISTÃO, COM SUA DESCRIÇÃO:

1ª Estação - O ADVENTO:
É a primeira estação do ano litúrgico, e designa o período em que a Igreja relembra e medita no significado da vinda (nascimento, encarnação) do Verbo Jesus. Advento quer dizer vinda, chegada. Compreende os quatro domingos que antecedem o Natal. A pregação e o ensino nesta época focalizam as profecias a respeito da vinda de Jesus e preparo espiritual necessário para recebê-lo. Entre seus símbolos estão as trombetas (sinal de anúncio), a coroa do advento feita com folhas do cipreste (apontando para a realeza), as quatro velas roxas ou vermelhas (uma para cada domingo). A cor liturgia é a roxa. Dá-se ênfase às músicas de Natal.

2ª Estação - O NATAL:
Comemorado no dia 25 de dezembro e no(s) domingo(s) que antecede(m) o dia 6 de janeiro (conforme o ano, a celebração pode ser de um só domingo ou de dois). Nesta ocasião se enfatiza a encarnação (o tornar-se humano) de Jesus Cristo, o Filho de Deus que veio participar da natureza humana. Para o cristão, esta data é muito mais do que uma festa de alegria onde se confundem a troca de presentes e a alegria de se estar com familiares com as Boas Novas do nascimento do Salvador. Entre seus símbolos estão a manjedoura. A cor litúrgica é a branca, lembrando a pureza.

3ª Estação - A EPIFANIA:
A palavra epifania significa manifestação e dá ênfase ao fato de Jesus ter se revelado ao mundo. Esta estação inicia-se no dia 06 de janeiro (considerado pela tradição como o dia em que os magos encontraram e adoraram o menino Jesus, em Belém) e vai até o início da Quaresma. O número de domingos pode variar entre quatro e nove conforme a data da Páscoa. Os cristãos acreditam que o menino Jesus Cristo não ficou isolado lá na manjedoura de Belém. Começando com sua manifestação aos magos, Jesus Cristo é apresentado a todos como Salvador. Durante este período, a Igreja relembra vários fatos na vida de Jesus que o tornaram conhecido como o Salvador. Entre seus símbolos estão a estrela (que guia os magos) e a coroa (Jesus rei do Universo). A cor litúrgica é a amarela, enfatizando a realeza de Cristo.

4ª Estação - A QUARESMA:
A palavra Quaresma vem da língua latina e quer dizer quadragésima e indica um período de 40 dias. Esse período compreende os seis domingos que antecedem a Páscoa. Começa na quarta-feira de cinzas e vai até o domingo de Ramos (que celebra a entrada de Jesus em Jerusalém), ou seja, um domingo antes do domingo da Páscoa. Relembra os 40 dias que Jesus passou no deserto em preparação para o seu ministério. A Igreja recorda também a decisão de Jesus de ser fiel ao Pai Celeste, mesmo que para isso tivesse de pagar com a própria vida (o que de fato ocorreu), bem como a necessidade de o discípulo(a) seguir a Cristo, mesmo que tenha de enfrentar os sacrifícios e a cruz. Por isso é tempo de lembrar as disciplinas espirituais que nos trazem paz e liberdade no Espírito. Quaresma é tempo de enfatizar, portanto, a necessidade do(a) discípulo(a) se conscientizar para a Missão e para ela se preparar. O símbolo da quaresma mais usado é a coroa de espinhos e a sua cor litúrgica é a roxa.

5ª Estação - A PÁSCOA:
A Páscoa é uma palavra que significa passagem. Passagem da escravidão do Egito para a liberdade na terra prometida. Passagem da morte para a vida. É celebrada da quarta-feira que antecede o domingo de Páscoa até o 6º domingo após ele. São muitos os símbolos da Páscoa. Entre eles estão o peixe (cuja palavra em grego é o anagrama da afirmação também em grego: Jesus Cristo, Filho de Deus é o nosso Senhor), o círio pascal, o ovo, o trigo, o pão, a uva, o cálice de vinho, cruz e túmulo vazio, as três cruzes vazias, a borboleta, o pelicano (que fere o próprio peito para alimentar seus filhotes com seu sangue), bulbos e sementes, o cordeiro pascal, o girassol. A estação litúrgica da Páscoa compreende dois momentos distintos, a saber:
- A Semana Santa, que é, sem dúvida a parte mais dramática de todas as recordações que temos de Jesus, pois celebra sua terrível experiência da Paixão, inclusive a traição, o abandono por parte dos seus discípulos, o escárnio e a dolorosa morte na cruz em oferecimento voluntário por toda humanidade. Abrange os dias da quarta-feira (quando se comemora o lava-pés) ao sábado anteriores ao Domingo da Páscoa. Inclui, portanto, a quinta-feira, que relembra a última Ceia, e a sexta-feira, sua morte. A cor litúrgica desta etapa é a roxa.
- A Ressurreição, que começa com o domingo da Ressurreição ou domingo de Páscoa (a nova Páscoa para os Cristãos) e abrange sete domingos. Recorda o significado da ressurreição e inclui o Dia da Ascensão (quarenta dias após o Domingo de Páscoa). A cor litúrgica para este período é o branco.

6º Estação: O PENTECOSTES.
0 50º dia após o Domingo da Páscoa comemora o Dia de Pentecostes, e dá início a esta estação, que pode cobrir até 16 domingos. O Pentecostes no Antigo Testamento era a festa em que os judeus ofereciam a Deus, ao final da colheita, os frutos como oferta de ação de graças. Foi por ocasião dessa festa que os primeiros cristãos experimentaram a certeza da presença de Cristo na comunidade de fé, pela descida e derramamento do Espírito Santo, conforme descrito em Atos 2. Neste período litúrgico são relembrados à Igreja, a Palavra, os Sacramentos, a atuação do Espírito Santo através da Igreja e também o Reino de Deus. Entre os símbolos do Pentecostes são os símbolos que representam o próprio Espírito Santo, tais como o fogo, a chama, a pomba, o vento, a pipa, etc. A cor litúrgica desse período é a vermelha.

7ª Estação - AS PRIMÍCIAS DO REINO:
É a última estação do ano litúrgico e dá ênfase especial ao Reino de Deus, lembrando à Igreja que este já começou, e está entre nós, embora não tenha se consumado. O que só se dará quando da segunda manifestação (vinda) de Cristo. Inicia-se no último domingo de agosto, o domingo da "realeza de Cristo" e termina no domingo anterior ao início do Advento, ou seja, no quinto domingo antes do Natal.
Nesta estação litúrgica enfatizamos a criação e a providência de Deus para sustentar sua criação à qual tanto amou. Estudamos com especial atenção os textos bíblicos que tratam da promessa e Aliança de Deus com o seu povo, e de modo especial, os profetas e sua mensagem. Celebramos também a esperança da consumação da história humana com a segunda vinda de Cristo, ou seja, com a chegada da plenitude do Reino, governo e presença de Deus no mundo, quando todos os joelhos se dobrarão. Estudamos ainda a escatologia, ou seja, os chamados "últimos dias", a ressurreição geral, o arrebatamento e a vida eterna. Entre os símbolos desse período estão o ramo da videira ou de qualquer outra planta com flores e frutos, a coroa imperial e a balança (símbolo da justiça e do julgamento). 


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